O que esperar do mercado de carbono no Brasil em 2026: a visão de quem está no campo e na cidade

O mercado de carbono no Brasil entra em 2026 em um momento decisivo.

Depois de anos de debate, aprendizados e amadurecimento institucional, finalmente começamos a enxergar com mais clareza o caminho para a consolidação de um mercado regulado, ao mesmo tempo em que o mercado voluntário assume um novo papel: o de preparar, testar e estruturar soluções que façam sentido para a realidade brasileira.

Na minha visão, 2026 não é o ano da virada final, mas sim o ano da preparação consciente.

É quando produtores rurais, empresas, cidades e governos locais começam a entender que o mercado de carbono não é uma promessa distante. Ele já está acontecendo, com impactos reais e decisões que precisam ser tomadas agora.

O agro como base do mercado de carbono brasileiro

Quando falamos de carbono no Brasil, é impossível não começar pelo agro.

O país construiu sua matriz ambiental dentro das propriedades rurais, com Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente previstas em lei. Diferente de outros mercados, aqui a preservação não é exceção, ela é regra.

O que muda agora é a forma como essa preservação é enxergada.

Em 2026, a tendência é clara: áreas conservadas passam a ser vistas como ativos ambientais, desde que tenham integridade, rastreabilidade e base legal sólida. Não se trata de “criar floresta”, mas de reconhecer e remunerar quem sempre preservou.

Para o produtor rural, este é um ano estratégico para organizar informações, entender a elegibilidade de suas áreas e se conectar a metodologias que conversem com o futuro mercado regulado. Quem se antecipa ganha tempo, segurança e poder de decisão.

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Área de preservação em propriedade rural.

O diagnóstico do BNDES e o amadurecimento do mercado

Esse movimento de amadurecimento ficou muito claro no Relatório de Resultados da Consulta Pública sobre o Mercado de Carbono, publicado pelo BNDES em abril de 2025.

O documento consolida contribuições de diversos agentes do ecossistema e aponta, de forma bastante objetiva, os pilares necessários para que o mercado brasileiro ganhe escala com credibilidade.

Entre as conclusões centrais do relatório, destaco quatro pontos que considero fundamentais para 2026:

Integridade como pré-condição de mercado

O relatório reforça que não há espaço para soluções frágeis.

Mensuração consistente, verificação independente, rastreabilidade e alinhamento com a legislação ambiental brasileira deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos básicos.

Convivência entre mercado voluntário e regulado

O BNDES reconhece o papel do mercado voluntário como ambiente de aprendizado, teste de metodologias e construção de capacidades, especialmente em um país com a complexidade territorial e jurídica do Brasil.

Valorização dos ativos ambientais existentes

Em vez de importar modelos prontos, o relatório destaca a importância de reconhecer ativos já presentes no território brasileiro, como florestas nativas preservadas, áreas protegidas por lei e instrumentos como o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA).

Participação ativa de produtores, municípios e instituições públicas

O mercado de carbono é visto como uma engrenagem que envolve múltiplos atores, incluindo governos locais e ativos ambientais urbanos, ampliando a visão de que carbono é apenas uma pauta rural ou corporativa.

Essas conclusões mostram que o mercado brasileiro está deixando a fase conceitual e entrando em uma etapa mais pragmática, onde coerência técnica e segurança jurídica são inegociáveis.

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Relatório de consolidação das contribuições da consulta pública BNDES.

As cidades entram definitivamente no jogo

Um movimento que considero fundamental, e ainda pouco explorado, é o papel das cidades no fortalecimento do mercado de carbono. Parques urbanos, áreas verdes municipais, fundos de vale e remanescentes florestais em zonas urbanas têm um potencial enorme de geração de serviços ambientais.

Em 2026, veremos crescer o interesse de municípios em estruturar projetos de carbono e PSA como instrumentos de política pública, planejamento urbano e financiamento climático.

Isso não é apenas uma agenda ambiental, mas também econômica: cidades podem atrair recursos, fortalecer sua imagem institucional e reinvestir em qualidade de vida.

O mercado de carbono brasileiro só será robusto se conectar campo e cidade, produção e conservação, rural e urbano, respeitando as especificidades de cada território.

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Vista aérea do Parque do Ingá em Maringá – PR.

A experiência da Jiantan até aqui

Na Jiantan, acompanhamos esse movimento desde o início.

Nosso trabalho nasceu justamente da necessidade de traduzir o mercado de carbono para a realidade brasileira, conectando legislação ambiental, Pagamento por Serviços Ambientais e métricas de carbono de forma simples, transparente e aplicável.

De forma muito natural, ao analisar o relatório do BNDES, identificamos grande convergência entre as conclusões da consulta pública e o caminho que temos construído na prática.

Atuamos diretamente com produtores rurais, cooperativas, empresas e parceiros institucionais, estruturando projetos baseados em florestas nativas preservadas, com foco em integridade, impacto real e remuneração justa.

Também temos avançado em diálogos com cidades e instituições públicas, entendendo como áreas urbanas e periurbanas podem integrar essa nova economia do carbono de forma responsável.

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Foto de palestra sobre o Agro em ambiente de inovação.

2026: o ano de se posicionar

Se eu tivesse que resumir 2026 em uma palavra, seria posicionamento.

Não é o ano de esperar todas as regras ficarem prontas, mas de entender para onde o mercado está indo e se preparar com consistência.

Produtores que se organizam agora estarão prontos quando a demanda crescer.

Empresas que estruturam suas estratégias climáticas desde já terão mais opções e menos riscos. Cidades que se antecipam poderão transformar conservação em investimento.

O mercado de carbono brasileiro está deixando de ser uma ideia para se tornar uma engrenagem real da economia. E quem entende isso antes, constrói o futuro com mais autonomia.

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